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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Nota de pesar

Cá estou olhando para minha estante, cheia de livros não lidos que eu quero ler mas não consigo. É estranho lembrar que eu era uma leitora ávida e agora me sinto sem capacidade de ler um livro de 400 páginas (que outrora me era sedutor). Escrever também não é mais uma realidade, ainda que eu tenha muitas palavras e sentimentos para colocar para fora, está tudo acumulado aqui e sem data para ir embora, infelizmente.
Sabe, o que era natural parece não se encaixar mais e isso até dói pois muita coisa me fazia bem. Eu não sei... tô perdida de mim e essa sensação só piora quando olho para a realidade do nosso país, das pessoas que nos rodeiam e se dizem de bem mas abraçam e cultuam o que é mal. Eu não entendo. O mundo está ao contrário e ninguém reparou.
E, sabe, está difícil sonhar e vibrar positividade nesse cenário cinza de puro caos, suor e sangue.
Se alguém me achar por aí, me devolver pra mim.

Tudo passa, tudo passará. 
E nossa estória, não estar 
Pelo avesso assim 
Sem final feliz. 
Teremos coisas bonitas prá contar. 
E até lá vamos viver 
Temos muito ainda por fazer. 
Não olhe para trás 
Apenas começamos 
O mundo começa agora 
Apenas começamos.”


P.S.: o livro segue fechado.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Fofoca Reversa

Você já foi vítima da fofoca reversa? Funciona assim: Quando você chega num ambiente as pessoas apontam para você e cochicham "é ela" "essa ai, ó"; você vai passando em algum lugar e ouve seu nome no meio de uma conversa; e as vezes alguém te para no meio de seu trajeto em um dia normal para falar o que pensa de você, na sua cara. 
E sabe o que mais? É a melhor coisa do mundo.
Eu já passei por isso outras vezes, mas hoje parei para refletir sobre minha alegria com meus dias e conclui que a fofoca reversa tem lá sua contribuição no meu estado de espírito, vê se não é motivo suficiente.
Cheguei no trabalho com uma roupa comum na minha prática, legging, camiseta e sapatilha, pra variar um pouco, coloquei um turbante e óculos de sol. Pronto, foi o suficiente para que houvessem cochichos quando cheguei. Passei novamente no corredor e alguém pergunta "Você é a fisioterapeuta?" Sim, respondi, já imaginando que a senhora ia reclamar por causa do horário ou coisa assim, mas para minha surpresa ela abriu um sorrisão e disse "Que coisa boa! Além de ter minha consulta hoje ainda será com você, tão linda! Me ensina a fazer esse penteado?" Ensino sim, pode deixar, chamo já a senhora. (Rindo desde o sorriso dela).
Chamei a primeira pessoa e os elogios continuaram, e melhor que isso, relatou estar observando melhoras significativas, estando praticamente de alta. O segundo disse que faz todos os exercícios e não sente dores relevantes, acredita que com a ajuda deles pode ficar bom, e pode mesmo. Disse que contou para um amigo e o amigo não acreditou ai ele mostrou uns e o tal amigo tentou fazer em casa e disse que sentiu-se bem "Mas vá lá na 'doutora' que ela te consulta, avalia e passa exercícios pra você", ele disse. "'Doutora' enquanto eu tava ali fora esperando, fiquei conversando com o senhor e ele disse que tem dor no punho. Eu disse que não tinha porque fazia esse alongamento aqui que a 'senhora' ensinou e mandei ele te procurar porque a 'senhora' tem uns exercícios certos". A terceira recebeu alta, dizendo não sentir mais nada há duas semanas, só disposição. Ensinei a amarração do turbante para a senhora que me parou na recepção e ela disse que queria em outra ocasião ver meu cabelo solto porque disseram a ela que ele é lindo e que tentará fazer a amarração em casa e se der certo, nem na próxima consulta. Engraçado pensar que algum dia da minha vida eu tive receio em usar esse cabelão volumoso, esse turbante alto e chamativo ou que já ouvi alguns comentários desnecessários sobre esse mesmo cabelo. Como é bom ver que nada é, tudo está.
A noite ouvi uma amiga questionar por quê a medicina era tão valorizada se a fisioterapia era Deus em forma de profissão, pois só poderia ser algo d'Ele o que fazemos com as mãos. Achei tão lindo, me desmontou toda, tamanho elogio não a mim mas a profissão que me escolheu.
E coisas desse tipo seguiram ao longo do dia. No dia anterior, no outro, no decorrer da semana... Como a pessoa fica senão grata?! Grata por poder usar o que aprendeu para ajudar o outro que eu mal conheço mas me procurou por ter alguma esperança que posso fazer alguma coisa por eles. E eu tento, tento muito. E quando dizem que falam por ai o quanto se sentem bem, que conseguem fazer coisas que há tempos não faziam... Alegria sem fim em sentir podemos ser luz e levar o bem.

Se você já foi "vítima" de fofoca reversa, não cale-se, passe a ideia a diante, pratique também. Fale, inclusive, na cara e melhore o dia de alguém. Todos estamos interligados de uma forma ou de outra e, o bem que você faz volta para ti. 

Escolha bem a energia que você emana.

Muita luz!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Coisas da Vida

Oi, deixa eu te contar algo que talvez não faça a menor diferença para você mas que talvez te faça sorrir com a reflexão, assim como me fez. Ontem eu tava meio bad por causa dos meus olhos (essa visão nem sempre boa) aí hoje fui fazer uma visita e a mãe do paciente pediu para tirar uma foto minha para mostrar a netinha o quanto meu cabelo era bonito. Depois do atendimento essa senhora foi me acompanhar até a unidade de saúde, afinal, eu não conhecia bem o caminho e, durante o trajeto um senhor me parou e disse "moça, deixa eu te pedir um favor, do fundo do meu coração?" Eu pensei que era sobre atendimento, para que eu realizasse alguma visita ou marcasse alguma consulta, coisa do tipo, mas aí ele continuou "... Nunca alise seu cabelo, ele é lindo, muito bonito... Você é! Hoje em dia tanta gente com cabelo alisado, tanta gente querendo ter um cabelo assim e não pode..." e saiu sorrindo e elogiando. Já de volta ao meu local de trabalho uma das colegas de trabalho pede para eu trocar de cabelo com ela.  
Conclusão: passei o resto da manhã sorrindo e pensando como as coisas da vida são, os olhos não estão lá essas coisas mas o cabelo... olha, tá numa fase boa hein?! 
(A vida adora uma zueira!).

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Coisa de preto


Hoje acordei com vontade de ser ainda mais negra. Após ouvir uma história africana e ter pesquisado um pouco mais no dia anterior (coisa de curiosa, não consigo me contentar com pouca informação) me vi cheia de sentimento pela mãe de todas as nações.
Ler a respeito das expressões, religião, costumes... Como é rico esse continente! Me enche de orgulho e tristeza. Se por um lado amo tê-lo em minha essência, através dos meus ancestrais, sinto muito por eles terem vindos cheios vigor e traficados, vindos à força para uma terra nova, sendo obrigados a trabalhar, esquecer sua língua, seus costumes e sendo maltratados. Dói imaginar o quanto sofreram, o quanto meu sangue foi derramado e quantas lágrimas ficaram pelo caminho. Dói ver que mesmo após tantos anos a população negra ainda é marginalizada e sofre tanto preconceito e racismo.
Nesse dia saí de casa com meu melhor turbante, com uma amarração diferente, coloquei brincos grandes e um batom vermelho. Nos fones ouvi uma playlist cheia de reggae, rap, samba e soul. Delícia de música. No caminho vi muita gente me olhar como se fosse coisa de outro mundo. Engraçado, um "pano" na cabeça chamar tanta atenção assim. Chega a ser cômico ver que a cultura negra é tão incomum e que elementos europeus ou norte-americanos fazem mais sentido por aqui. 
Que viagem! A umbanda e candomblé serem tratados de forma tão pejorativa por todos, inclusive negros, devido a falta de saber, de conhecimento da própria história, a história do povo que de fato construiu esse país juntamente com os índios.
Acordei orgulhosa de ser quem sou. Feliz pela cor, pelo gingado, pelo cabelo, pela capacidade natural de superação. Coisa de preto (e todo mundo tem).
Quero mais cabelo crespo nas ruas, quero cachos livres das chapinhas, alisamentos e a porra toda. Quero cores, tambores, (capoeira!) riso solto e orgulho das nossas raízes. Quero respeito e expansão da cultura afrodescendente. Resistência. 
Axé!

segunda-feira, 7 de março de 2016

Representatividade, Empoderamento e bem-estar


Semana passada eu estava andando com minha mãe no centro e passamos por duas crianças que me chamaram atenção pela forma que me olharam. Naquele mesmo dia eu havia recebido vários olhares diferentes por causa, do meu cabelo black ou do meu batom roxo, não sei bem. Alguns olhavam com admiração outros com desdém, quem se importa, não é mesmo? Bom, mas voltando às crianças que me chamaram atenção.
Era uma menina que parecia ter uns 11 anos e um menino menor, talvez mais novo. Pareciam ser irmãos, O menino olhou para mim rapidamente e depois voltou o olhar, só que dessa vez com surpresa e algo a mais nos olhos que estavam 3 vezes mais abertos que da primeira vez. Ele puxou o braço da irmã e  tentou apontar em minha direção discretamente, sem sucesso, como se tentasse lembrar de uma palavra. Ela disse sem rodeios, "é black power!" e ele repetiu a palavra como e a saboreasse "black pooower... que legal!"
Eram duas crianças, com uniforme de escola pública e negras. Eu fiquei tão feliz com essa situação que comentei com minha mãe e ela respondeu "eles apontaram pro seu cabelo e você acha isso bonito?". é claro que eu acho! Sabe quantas influências negras ou que usem cabelo afro tem por ai? As crianças praticamente não têm personagem que as represente, que elas se identifiquem e assim, acabam achando que sua cor, seu cabelo é feio e que precisam mudar para serem aceitas nos grupos ou no mercado de trabalho posteriormente. 
Eu mesma não me identificava com as princesas da Disney. Gostava da Jasmine, do Aladdin, porque ela era o que mais se aproximava do que eu era, mas nunca tive uma boneca dela. Ou de alguma negrinha crespa. Meus bebês eram brancos de olhos azuis e cabelos loirinhos, loirinhos. É por essas e outras que sim, sim eu fico feliz que aquelas crianças olharam apontando pro meu cabelo. Acho que ali elas sentiram uma espécie de empatia, representatividade ou quem sabe, uma admiração por um cabelo semelhante ao delas, que todos dizem que é feio e que precisa ser alisado ou preso.
Re-pre-sen-ta-ti-vi-da-de, palavra grande, né? Tudo bem, combina com seu significado. Poder causar essa sensação em alguém é incrível, é uma forma de ajudar no empoderamento e empoderar é coisa séria. E se eu puder fazer isso apenas sendo quem sou e assumindo minhas características, mundo, se prepara porque eu não vou parar!

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Dia desses sai apressada para resolver umas coisas. Ao chegar na parada, que estava relativamente cheia vi várias pessoas se espremendo querendo uma sombrinha para esperar seus ônibus. Tinha um cara de camisa preta, calça jeans, óculos escuro e adivinha, black power. O dele era bem maior que o meu. Mesmo estando lotada, não tinha ninguém do lado do cara. Fiquei me perguntando se era coincidência ou preconceito mesmo, sei lá, vai saber. Eu sentei do lado dele e esperei meu ônibus.
Ele pegou o mesmo ônibus que eu e desceu na mesma parada também. Ele estava no assento à minha frente então pude observar as pessoas olhando para ele, mas principalmente as manias que ele tinha com o cabelo. Notei que eu também tenho a maioria deles. Fiquei pensando "Então todos agem assim? hahaha pensei que eu fosse exclusiva!", ao mesmo tempo fiquei feliz por ver que não estou só e a cada dia que passa vejo mais e mais gente feliz com sua essência, aceitando seus cabelos e características tais como são. :)  
Claro,  somos mais que só cabelo, mas esse é um passo.

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Ano passado estava voltando do estágio com uma amiga, comentando sobre planos, viagens e outras amenidades e no caminho passaram por mim uma negra com traças e mais a frente uma outra com dreads curtos. Notei que quando elas me viram sustentaram o olhar no meu cabelo, na época longos cachos, perguntei se minha amiga tinha visto e ela negou, mas eu fiquei pensando nisso e passei a observar melhor. Com o passar das semanas notei que isso sempre acontecia quando alguém com cabelo afro passava por mim: sustentávamos o olhar com um suave sorriso ali. Era como se naquele olhar disséssemos um para o outro "Você é lind@", "Seu cabelo é lindo, não acredite em quem diz que ele não é", "Parabéns por manter sua essência!". É algo nosso e até hoje se mantem, cada vez mais evidente para mim, o que enche meu peito de alegria.

Negros, negras, resistam aos padrões que nos excluem, somos todos lindos cada um a sua maneira. Resistam. Vamos viver e mostrar para todos a delícia que é ser negr@!